Para curar a dor eu resolvi me drogar de tudo que existe a minha volta. Eu resolvi queimar os elogios para me fazer a cabeça. Resolvi cheirar a loucura para me sentir livre. Resolvi injetar em mim uma felicidade tão falsa, mas que de repente, correndo nas veias, se torne verdade. Resolvi colocar minha máscara de volta no rosto e me reinventar outra vez. Não, não adianta. Aqui não tem mais espaço para você, sofrimento. Não vou me deixar sentir mais dor. Assim eu me curo dela. Não me permito noites de choro, nem de tristeza. Me embriago de vez nessa minha fantasia de esquecimento, que acabo esquecendo. Você vai ver. Vou correr de você, vou fugir e me esconder onde você não pode me achar. Lá, quem sabe, eu me permito algumas lágrimas. Algumas para desinchar o peito, para acalmar as dores. De repente, eu sofro um pouquinho para passar, um pouquinho.
Eu fujo de tudo e finjo tudo isso por não aguentar mais nada. Não aguento, não acredito. Amor é uma mentira. E toda mentira quando vivida, acaba parecendo verdade. Mas não vou mais me enganar. Amor não existe, e, se existe, não dura pra sempre. E, se não dura pra sempre, não é amor. Estou amarga com a vida. Amarga por causa da simplicidade que existe nela; o que acaba por ser um alívio sendo eu sempre tão complicada. Fico com a simplicidade de tudo apesar de sempre ter escolhido a complexidade das coisas. E me forço a acreditar que amor não existe, e assim me curo. Ou espero me curar. Se for mentira, repito até que seja verdade. E no dia que for, esqueço.
Esqueço essa dor que não me deixa te esquecer. Esqueço todas as lembranças que no momento me corroem por dentro. Esqueço para curar a dor que me persegue e que me encontra chorando. Mas só um pouquinho, porque não vou mais me permitir rios de lágrimas, nem noites de insonia, nem declarações de amor. Não me gasto mais atrás de você. Me economizo para o nada que me parece menos doloroso do que as lembranças que teimo em carregar aqui dentro. E invento mentiras a seu respeito só para justificar toda a minha mágoa, toda essa minha descrença. A verdade é a podridão dos desejos. A verdade é que já que ninguém se tem, ninguém se entrega. O perfume só serve para disfarçar a essência. E quando a gente finge ser forte, é só para esconder nossas fraquezas.
A bem da verdade é que parece impossível fugir da dor. Então eu corro, corro e não saio do lugar.
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