domingo, 25 de dezembro de 2011
Lembro como se ontem fosse o dia em que eu escrevi sobre ter me curado de você. Foi uma sensação tão boa. O texto eu perdi, não publiquei, e se publiquei não lembro onde. Lembro que tinha sido um dia tão cheio de tudo que queria me lembrar você que quando te vi pela janela do ônibus na calçada da rua acompanhado do seu mais novo amor, eu me senti tão livre e tão feliz como há tempos não sentia. Eu tinha finalmente me curado de tudo aquilo que você havia sido na minha vida, tinha me curado de todo o mal e de todo o bem que você me fizera sentir ao longo daqueles dois anos. Dois anos que a muito custo vinham se mantendo dentro de mim alimentados por migalhas do nosso amor, do meu amor por você. Mas vendo seu braço repousado sobre os ombros do seu mais novo amor, lugar que antes eu ocupava, eu senti algo realmente maravilhoso: fiquei feliz por você e por mim. Por você, por ter seguido em frente; e por mim, por não estar mais ali no lugar dela. E que felicidade que foi! Então ontem, quando mais uma vez o destino, ou a coincidência de termos ido para o mesmo shopping, para o mesmo cinema, no mesmo dia e no mesmo horário, me fizeram encontrar com você novamente, eu ri. Eu ri de tanta felicidade que eu senti. O sorriso não foi para você, nem mesmo a gargalhada. Eles foram para tudo, a começar pela situação. Que situação hilária que foi. Foi ver você me olhar e fingir não me conhecer porque de repente em dois anos não me conheceu mesmo. Foi você fingir não ter me visto porque de repente em dois anos você realmente nunca me enxergou. Eu falava tanto isso. Falava tanto para um ouvido que sempre parecia surdo, para alguém sempre tão distante. A verdade é que você só se mantem mesmo perto das pessoas que conseguem conviver com você e te achar o máximo que você não é, como essas pessoas que precisam de alguém que lhes valorize o ego. Meu erro sempre foi ver você como a criança que sempre foi. E não por isso eu te deixei, nem por isso eu deixei. Eu sempre quis tanto ver você crescendo e criando valores que fui embora pelo simples fato de você não ter crescido nem absorvido valor algum durante todo o tempo em que estivemos juntos. Eu cansei. E ontem eu vi seus mesmos valores de sempre: a blusa de marca, com a calça de marca, com o tênis de marca, com o óculos de marca e o relógio de marca. De repente no bolso a chave de um carro novinho dado pelo papai com o tanque cheio e bem lavado. Na carteira, a mesada do mês para você gastar em motéis cinco estrelas e presentes caros. Os valores sempre nas coisas que você tem e não naquilo que você é. Porque você não é uma calça, nem uma blusa, nem um tênis. Você é só um menininho que sustenta tudo isso, mas que por dentro tem tão pouco. Que por dentro é vazio. Um ano depois e você nada tinha mudado. De repente o perfume seria o mesmo, porque até o jeito de andar era o mesmo. Você e a sua mania de estufar o peito para parecer mais forte. Aquela blusa tão brega mas que por ser de marca você achava um máximo. A diferença entre você e o ridículo sempre pôde ser medida com um palmo de distância. E mesmo depois de todo esse tempo, parece que você não se afastou milímetro algum. Mas foi divertido ver você fingindo que não me conhecia. Nunca conheceu, agora mesmo devo ser uma estranha; eu mudei tanto desde quando terminamos. Só o penteado eu mudei inúmeras vezes, as cores das unhas. Até as minhas crenças. Aquela menina que tanto queria uma floresta replantada só para que o mundo não acabasse, que queria acabar com a violência, com a fome, com a miséria; aquela menina plantou uma árvore. Encontrou primeiro a própria paz, deu mais valor ainda ao que tem, procurou entender o porquê de cada um passar pelo que passa. Não que eu ainda não tenha todos esses meus antigos projetos megalomaníacos, são eles que movem meus projetos menores de vida, a exemplo da floresta e da árvore. Nós éramos tão opostos, tão diferentes. Eu costumava achar que nosso namoro era uma troca, como todo namoro deve ser. Por isso que terminamos: você não absorvia nada daquilo que eu te oferecia, e me oferecia pouco. Pouco que para você era muito, mas que para mim sempre foi isso: muito pouco. E foi também por muito pouco que eu lhe cumprimentei. Pensei em falar um “oi, como vai”, perguntar sobre a sua vida, ser gentil com a sua nova namorada, te apresentar meu quase namorado homem, tão maduro e tão cheio dos valores que você nunca teve. Pensei e ri. Porque quando pensei em perguntar como estavam as coisas com você e com a sua vida, eu tive minhas respostas só de te olhar: o mesmo de sempre. E ainda que tivesse mudado o mínimo que fosse, eu percebi que não fazia a menor questão de saber sobre você. Ali, você agiu como se não me conhecesse; e eu, tão bem te conheço que te cumprimentar não seria mesmo nenhuma novidade.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário